domingo, 29 de abril de 2012

Batom vermelho

A transformação de menina para mulher vai muito além da faixa etária e da forma física, pois é uma evolução espiritual, é um processo de amadurecimento e uma questão de atitude e comportamento.
Para ser mulher de verdade é preciso em primeiro lugar ter maturidade e serenidade perante a vida, pois para esta mulher  os príncipes encantados e status não tem mais sentido, ela busca um parceiro para dividir seus dias.
Bem lembrado caro leitor, eu estou falado de mulher, e uma mulher busca um homem e não um menino. Quem cuida de criança é mãe e não parceira. Este homem deve encantá-la, cuidá-la, desejá-la, fazer dela uma verdadeira fêmea em seus braços e sua parceira pela vida.
Numa relação entre homem e mulher o elogio, o cuidado, o diálogo, a parceria, o desejo,a vontade de estar junto e a crença na relação devem ser elementos de ordem para que esta se construa de maneira sólida e dure o tempo que precisar.Para isso, será preciso ser maduro , ser homem , ser mulher ,ter segurança.Relacionamento, namoro, casamento não são para meninos e meninas.
A impulsividade e a insegurança típica da juventude faz com percam tempo em discussões bobas, implicâncias sem fundamentos e relações falidas. Erros cometidos na juventude devem servir de aprendizagem para o processo de amadurecer, no entanto, se corações partidos e erros não nos tornarem mais fortes,  significa que por mais idade que tivermos ainda seremos crianças pois teimamos persistir nos mesmos erros.
 Para uma mulher o belo, o perfeito e ilusório não lhe satisfazem, mas o imperfeito, o real e o macho serão seus melhores parceiros, pois ela já se conhece e sabe  que quer, pois com os erros da juventude aprendeu a dar valor naquele homem tímido, no bom homem e hoje o canalha lhe causa náuseas.Frases clichês e mais do mesmo não lhe convence, ela quer conhecer a essência do homem que a escolher ,  aprender a admirá-lo e conviver com seus defeitos.Esse homem deve surpreendê-la com a sua verdadeira personalidade sem medo de ser feliz.
Uma mulher já mandou embora a vergonha do corpo nu, já sabe o que dá prazer, sabe ser sedutora até mesmo quando veste a camiseta do namorado após fazer amor com ele, como quem diz: eu sou tua. Tem atitude e bom senso dentro e fora de quatro paredes, pede o que deseja e ouve o outro, não implica com as pequenas manias dos homens ou muito menos vive a reclamar deles para as amigas. Aquilo que lhe incomoda discute com o parceiro e tudo se ajeita, ri das manias loucas dele, pois reclamar leva tempo.Esse tempo pode ser usado em outras coisas como exemplo mais minutos dormindo de conchinha, mais elogios e sacanagens ao pé do ouvido, mais horas de desejo.Ela não tem tempo para ser ciumenta e muitos menos vive espreitando seu parceiro para descobrir se a trai, ser feliz lhe toma mais tempo.
Tornar-se mulher para algumas pessoas é algo natural que vem com a maturidade, o sexo, a vivência, parou outras é preciso um rito de passagem, uma marca, um momento epifânico.Para  a personagem de hoje, Ana, foi o batom vermelho.
Antes de contar essa história, vou falar de Ana: 1,60m de altura, 50 kg , cabelos castanhos compridos, olhar perdido, cor branca, sem curvas e vestia-se sem atrativo algum, aliás caro leitor, alguém sem sal e sem açúcar, sem vida, não despertava desejo em ninguém, acho nem nela mesma, olhar-se no espelho como mulher , nunca tinha feito.
Ana, no auge de seus 30 anos, andava chateada, pois ansiavam ter um namorado como todo mundo, seus 5 anos de terapia nada tinha mudado sua relação com os homens, sentia-se insegura e cada vez mais carente e não sabia o real motivo que eles sempre a deixavam , ela sempre fazia tudo direitinho o que as revistam mandavam.
Caro leitor, o que havia de errado com Ana? Embora fosse adulta, ainda se portava como uma menina carente e que precisa de um pai e não de um parceiro, e faltava lhe atitude e saber quem realmente era e o que desejava , faltava amar-se a si mesma. Aliás, faltava muito para ser mulher.
Numa certa manha nublada de maio, Ana passava em frente a uma loja  de cosméticos e inexplicavelmente sentiu-se atraída por um batom vermelho de tom forte que viu na vitrine, permitiu-se entrar na loja e experimentar, ao pegá-lo em suas mãos um turbilhão de dúvidas passavam pela sua cabeça.
Será que vai combinar? Não combina comigo? Será?Será que vou ficar com cara de puta?
Fechou os olhos, respirou fundo , e passou lentamente o batom pelos finos lábios, roçou um  lábio no outro para espalhar a cor.Olhou-se  no espelho e viu uma outra mulher não era Ana, era alguém de personalidade forte e sensualidade.Ana não se reconhecia nesse espelho, ajeitou o cabelo, sentiu-se poderosa, fez biquinho e ria-se de si mesma na loja.
Aquele momento, foi o seu despertar para a feminilidade, sentiu vontade de usar salto, roupa mais sensuais, ter um espartilho,fazer dança do ventre , ser diferente.Pediu a vendedora alguns produtos para maquiagem e se inscreveu num curso de maquiagem, aprendeu muito e passou a ser maquiar mais , o batom vermelho lhe fez sentir mais mulher e mais confiante.Jogou fora todas as revistinhas de comportamento, dispensou o analista, inscreveu-se num curso de fotografia e largou o emprego e resolveu  fazer um mochilão pelo mundo com as suas economias. Vendeu tudo que tinha, largou família e sumiu no mundo, queria deixar aquela vida velha para trás , queria vida nova, queria uma mulher nova.Arrumou as malas e pegou uma lata de lixo e disse:
-Aqui eu vou colocar todo meu medo, minha insegurança e minha covardia no lixo, na mala só vai a minha fé que tudo dará certo e algumas roupas.
Embora isso soasse loucura , para Ana era uma aventura para o desconhecido, e uma oportunidade única que lhe daria, pois pela primeira vez teve coragem de fazer o que realmente quis, ser feliz pensando nela mesma.Cuidou da sua felicidade, despojou-se de preconceitos, aprendeu e se encantou com o ser humano.Conheceu gente e ofereceu ao mundo seu trabalho.Ao retornar ao país montou uma exposição intitulada “ O mundo aos meus olhos” que trazia muito de Ana Luísa , pois não era mais Ana do escritório, a nana da Irmã caçula e nem a Aninha do avô.Era a Ana Luísa fotografa dos contrastes, das paixões, suas fotos já renderam prêmios Pulitzer , seu olhar sobre o mundo era intenso, duro, polido e político tudo ao mesmo tempo um turbilhão , um  furação.
Suas andanças pelo o mundo a fizeram mais ouvinte, colecionou histórias e experiências, aprendeu com as espanholas a ser forte, com as mulçumanas a ser sensual, com as indianas a ver o sexo como uma união espiritual de homem e mulher, com as japonesas a ser discreta, com as francesas a ser elegante, com as africanas a ser alegre apesar da diversidade. Ana Luísa era uma soma de mulheres agora e a fazia uma pessoa muito melhor.
Perdeu a vergonha do próprio corpo, tornou-se mais segura e madura e pode desfrutar do melhor que a relação homem mulher pode oferecer, permitiu- sexo casual, amores sem futuro, parcerias verdadeiras e paixões fulminantes. Acumulou experiências verdadeiras, agora era uma mulher de verdade, completa, inteira.
Ana Luísa estava muito feliz com o impacto de sua exposição e ao bebericar uma taça de champanhe refletia sobre sua conquista, e ria tudo isso foi motivado por um batom vermelho, quem diria. Se algum vidente me contasse sobre qual seria meu destino naquela época e dissesse que eu me transformaria radicalmente, certamente não acreditaria. Mas eu me fiz alguém bem melhor do que era. Bendito batom vermelho, feliz ousadia, e perfeita escolha.


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